Amanhã, os Trabalhadores Saem à Rua Unidos — O Que Fica

Amanhã, os Trabalhadores Saem à Rua Unidos

Ilustração para o artigo Amanhã, os Trabalhadores Saem à Rua Unidos

Há momentos em que uma sociedade é obrigada a olhar-se ao espelho e, para lá de ver, reparar. A revisão da legislação laboral é um desses momentos. Governo e patronato falam de modernização, de flexibilidade, de competitividade, de preparar o país para o futuro. Mas do que falam os trabalhadores? A pergunta continua a ser sempre a mesma. Quem ganha poder e quem perde? É nessa dicotomia que tudo se decide. Num país onde o trabalho sustenta a vida de milhões de pessoas, não é suficiente medir a economia pelo crescimento económico. É importante, mesmo fundamental, medi-la também pela dignidade, pela estabilidade e pelo tempo para viver.

Portugal não tem necessidade de um mercado de trabalho que transforme o trabalhador numa peça descartável. Precisa de uma economia capaz de produzir riqueza sem esmagar quem a produz. Precisa de recordar que os direitos laborais não nasceram por boa vontade e benevolência do poder, do patronato, mas pela organização, resistência e luta dos trabalhadores e dos sindicatos, que ajudaram a conquistar o salário mínimo, as férias pagas, a contratação coletiva, a liberdade sindical e a proteção contra o despedimento arbitrário.

Argumenta-se que flexibilizar é tornar a economia mais ágil. Diz-se que, quando o despedimento é fácil, rápido e barato, as empresas competirão pelos melhores trabalhadores. Mas quando essa flexibilidade se traduz em contratos frágeis, horários imprevisíveis e menor capacidade de resistência coletiva, o nome muda para precariedade. Flexibilidade para as empresas significa, quase sempre, precariedade para os trabalhadores. Como pode um trabalhador que vive sob ameaça constante ter tempo e energia para cuidar da família, da saúde ou da própria formação?

Vivemos uma contradição difícil de ignorar. No nosso país há crescimento, há investimento, há até reconhecimento internacional. O problema é que este dinamismo não se traduz em melhores salários, em habitação acessível ou em mais tempo de vida. Desconcertante! Num país onde se fala de escassez de mão de obra, seria expectável que os salários subissem e que o poder reivindicativo dos trabalhadores se reforçasse, mas não. Os salários permanecem pressionados, e as propostas em discussão caminham no sentido de facilitar a posição dos empregadores, não de equilibrar a relação laboral. Isto desmente a narrativa liberal de que o mercado se auto-regula em benefício de todos. Se a escassez de mão de obra funcionasse como os defensores da desregulação prometem, os salários já teriam subido. Não sobem porque o poder negocial dos trabalhadores continua limitado. O que vemos é um modelo que produz riqueza, mas a sua distribuição continua profundamente desigual.

A inteligência artificial e a quarta revolução industrial prometem libertar tempo e criar abundância. Pode acontecer. Mas a história das revoluções tecnológicas mostra que não tem sido assim. Sem redistribuição dos ganhos, sem reforço dos direitos e sem poder negocial dos trabalhadores, a tecnologia tem aumentado a produtividade e concentrado riqueza em menos mãos. Portanto, mais do que saber quem beneficia, importa perceber como se distribuem os ganhos e os custos desta transição.

A tecnologia não é neutra, nunca foi. Incorpora escolhas políticas sobre vigilância, tempo de trabalho e distribuição de poder. Essas escolhas definem se será um instrumento de libertação ou de intensificação do controlo. No contexto atual, tudo indica que está a ser usada para reforçar assimetrias já existentes.

Não há defesa da família sem tempo para a viver. Falar de conciliação sem estabilidade laboral é uma ilusão. A defesa da família, do bem-estar e do tempo de vida não é compatível com um modelo que normaliza a precariedade, a disponibilidade permanente e a insegurança no emprego. Quando o trabalho invade tudo, a vida encolhe e viver reduz-se a sobreviver. Uma sociedade que aceita isso em nome da competitividade está a aceitar uma forma silenciosa de empobrecimento.

É importante notar que o Dia do Trabalhador existe precisamente para lembrar que os direitos não caem do céu, são conquistados. Por isso, o momento atual exige mais do que indignação, exige organização, unidade e presença. O 1.º de Maio de 2026, assinalado em manifestações por todo o país, é uma oportunidade para transformar preocupação, discordância e incómodo em força coletiva e em vontade de mudar e melhorar.

Num momento em que o trabalho volta a estar sob pressão, a resposta tem de ser a mobilização. É tempo de os trabalhadores se juntarem, de fortalecerem os sindicatos e de mostrarem que não aceitam uma economia que pede sacrifícios sempre aos mesmos. A defesa da dignidade no trabalho, da família, do tempo de vida e do futuro começa na rua, na união e na participação. Amanhã, a presença de cada um conta, porque, quando se juntam, os trabalhadores tornam-se uma força coletiva com poder para transformar.

ESCUTA DEVAGAR
João Paulo Maltez