Perguntas de uma classe que esquece — O Que Fica

Perguntas de Uma Classe Que Esquece

Vivemos um período de desigualdade extrema, e, no entanto, a ideia de classe desapareceu do debate público. Mais, estranho ou não, desapareceu também da cabeça de quem vive do salário. Numa época em que uma fração mínima da população acumula fortunas obscenas e a precariedade se tornou a norma da existência, o capitalismo conseguiu o seu maior feito ideológico. Convencer quem trabalha de que as classes já não existem, que cada um está sozinho e é o único responsável pelo que lhe acontece. Quem ganhou e ganha com isso?

Responder a quanto ganham, o que pagam pela casa e quantas horas trabalham é fácil para os portugueses. A maioria replica prontamente que o salário já não estica e a renda cresce mais do que o salário. Jovens cada vez mais velhos permanecem em casa dos progenitores que já têm idade de avós. À pergunta se são pobres, quase todos respondem que não. Só quem mendiga por esmola ou dorme na rua é pobre hoje. Quem trabalha e ainda sobra para um café não se atreve a usar a palavra. Já quando se pergunta a que classe pertencem, hesitam, como se a pergunta fosse de outro tempo.

Mais de 60% são classificados pela OCDE como pertencendo à classe média. Em 2019, apenas 32% se identificavam como dela fazendo parte, o valor mais baixo entre os países analisados. A classificação diz uma coisa, a percepção dos trabalhadores diz outra. É a vida de quem decora o quarto na casa dos pais como se fosse um apartamento próprio, para poder dizer que tem um espaço seu.

Alguns esperam uma promoção. Outros, uma casa ou uma oportunidade que finalmente lhes permita deixar de viver mês a mês. A classe média tornou-se uma espécie de urgência hospitalar com os tempos de espera que conhecemos, e enquanto esperam, deixam de se reconhecer como classe.

A desconstrução da consciência coletiva não foi um acidente, antes uma operação cirúrgica no vocabulário. O discurso corporativo apagou das empresas palavras como operário, trabalhador ou subordinação e no seu lugar instaurou-se uma linguagem de dissimulação, feita de colaboradores, parceiros e talentos. Com a capa da flexibilidade, vendeu-se a ficção do trabalhador autónomo. As palavras não descrevem apenas as relações de poder, ensinam-nos a habitá-las. Um colaborador parece participar numa relação de cooperação. Um trabalhador sabe que existe uma relação de poder. O trabalhador, agora colaborador, já não se vê como alguém que ocupa uma posição comum, semelhante à de milhões de outras pessoas. Passa a ver-se como um caso individual, ainda não vencedor, mas com potencial. Já não vê alguém dependente do salário, sujeito à precariedade, submetido a uma relação de exploração. Vê alguém a atravessar uma fase difícil ou um empreendedor a construir o futuro.

Em Portugal esta ilusão encontrou o seu monumento nos falsos recibos verdes e na cadeia sem fim de contratos a prazo. O estagiário eterno, o operador de call-center esmagado por metas, o falso freelancer que trabalha para um só cliente, todos foram persuadidos a olharem para si como gestores da sua própria marca. O recibo verde mostra bem este cenário. O horário está definido, o trabalho é indispensável, a dependência económica é total, e a empresa exerce sobre aquela pessoa um poder igual ao que exerceria sobre qualquer empregado. Mas no papel existe autonomia. É a forma elegante com que o neoliberalismo nomeia a ausência de proteção. O trabalhador paga os próprios seguros, suporta os períodos sem trabalho, organiza as férias quando pode e enfrenta a doença como um problema privado. É simultaneamente o patrão imaginário e o assalariado real, com liberdade total para gerir tudo o que não tem poder para decidir.

Para desarmar a luta de classes transitou-se para uma sociedade de desempenho. O novo mandato já não é deves, é podes, uma lógica que se revelou mais eficaz do que a obediência. O resultado não é a libertação, mas a autoexploração. O trabalhador explora-se a si próprio convicto de que está a exercer a sua soberania pessoal. A mensagem já não é trabalha mais, é melhora-te. Aumenta as qualificações, sê mais resiliente, reinventa-te, desenvolve uma marca pessoal. Claro, o esforço conta, o problema aparece quando se pretende que essas escolhas existam fora das condições em que são feitas. Falar de mérito torna-se um exercício abstrato quando a partida é desigual. Não há margem para investir em formação se o salário mal paga a renda. Com o receio constante de não conseguir pagar as despesas do mês seguinte, a ideia de reinvenção pessoal não é mais do que uma piada de mau gosto. Quando o mesmo resultado aparece na vida de milhões de pessoas, o problema não está em cada uma delas. É isso que a ideologia do desempenho não deixa ver. O teu salário é baixo, falta-te competência. O teu contrato é precário, adapta-te. Estás exausto, organiza-te. O problema deixou de ser social e passou a ser teu. Assim se desfaz uma classe, não pela força, mas pela culpa.

A exploração não desapareceu, tornou-se invisível. A angústia produzida pela precariedade, pelos salários baixos e pelo medo do futuro deixou de ser lida como um problema coletivo e passou a ser tratada como um problema íntimo.

Zé Povinho

Quando o salário não permite sair, a independência deixa de ser uma etapa natural da vida e passa a ser um privilégio. A casa é um exemplo acabado desta transformação, é a fronteira entre autonomia e dependência, entre a vida adulta e a permanência forçada na casa dos pais. Aqui o debate público falha. Fala-se de salários e de rendas sem dizer quem os define e quem os recebe. Há uma prova recente. No dia 30 de setembro, a proposta de lei do Governo para o arrendamento urbano passou na generalidade com os votos do PSD, CDS, IL e, evidentemente, a abstenção do Chega. No mesmo dia, Hugo Soares e André Ventura assinaram um acordo para alterar quatro pontos do diploma na especialidade. O quarto pretende distinguir quem não paga por má-fé de quem não paga por incapacidade real. A distinção, no limite, só se decide em tribunal. Na prática quem tem menos dinheiro, menos tempo e menos segurança terá de provar que é suficientemente pobre para merecer proteção. Ao tornar o despejo mais fácil e a entrada mais cara, transferiram a insegurança para quem arrenda e devolveram a tranquilidade a quem possui. A isto chamam estas forças políticas estabilidade.

Esta lógica divide trabalhadores que têm problemas semelhantes. Opõe o setor público ao setor privado, os mais velhos aos mais novos, os nacionais aos imigrantes, os qualificados aos não qualificados, quem tem contrato sem termo a quem trabalha a recibos verdes. As diferenças existem, são muitas e estão a servir como uma cortina que evita colocar coletivamente a pergunta. Quem depende do seu trabalho para viver e quem consegue viver do trabalho dos outros?

A figura do microempresário mostra bem esta confusão. O dono do café, da oficina, da mercearia ou do restaurante não ocupa a mesma posição que o trabalhador que emprega, e há entre eles uma relação de poder. Mas muitos pequenos empresários trabalham mais horas do que os seus empregados, vivem com margens reduzidas e endividaram-se para comprar o próprio posto de trabalho. Quando um trabalhador recusa horas extraordinárias ou exige melhores condições, o microempresário olha para o lado e vê o empregado como obstáculo. Raramente vê a cadeia económica que lhe esmaga as margens, os preços que não controla e as empresas maiores com que compete em condições desiguais. Desprovido de consciência e solidariedade de classe, o microempresário acaba por defender o sistema que o esmaga, confundindo a pequena propriedade que possui com o grande poder que, de facto, o domina.

O neoliberalismo nunca foi apenas um ensaio teórico para desregulamentar mercados ou libertar a iniciativa individual. Serviu, desde o primeiro dia, o projeto de uma classe, o de reconcentrar o poder e a riqueza nas mãos das elites económicas. Enquanto os trabalhadores são postos a competir com o colega do lado, as elites económicas mantiveram-se exemplarmente organizadas enquanto classe. Usaram o Estado para salvar bancos, privatizar setores estratégicos, desmantelar leis do trabalho e transferir fatias gigantescas do rendimento nacional do trabalho para o capital.

Vale a pena ler mais devagar aqui e reparar-mos na assimetria. Quando os trabalhadores falam de classe, são acusados de voltar ao passado. Quando os proprietários defendem os seus interesses comuns, chama-se-lhe competitividade. A palavra incomoda só de um lado. E no entanto a classe não é uma gaveta estática numa tabela estatística, nem um conceito de gabinete. É uma relação, um processo histórico vivo, acontece quando homens e mulheres, que partilham as mesmas dores e a mesma experiência de exploração, descobrem que os seus interesses são comuns e se opõem aos daqueles que vivem do seu trabalho.

A classe trabalhadora não desapareceu. Está nos hospitais, nas escolas, nos armazéns, nos restaurantes, nas obras, nas plataformas digitais. Tem profissões diferentes, contratos diferentes, rendimentos diferentes, mas continua a depender do trabalho para viver. O trabalho entra em casa, depois do emprego, e ocupa a noite de quem ainda tem de responder a mensagens, preparar aulas, fechar contas. Quanto da sua vida tem o trabalhador de entregar para conseguir sobreviver?

Não é a classe que está perdida, a capacidade de a reconhecer é que está adormecida e essa cegueira corrói por dentro. Faz com que cada trabalhador fique mais isolado e cada problema mais privado. Permite que a precariedade pareça azar e o salário baixo falta de mérito. Sobra a voz daqueles que beneficiam da desigualdade e continuam a apresentar os seus interesses como se fossem os interesses de todos. Recuperar a identidade de classe é voltar a ligar o salário à casa, a casa ao trabalho, o trabalho ao tempo.

A inteligência artificial leva isto mais longe. Durante anos, disseram aos trabalhadores que a resposta à mudança tecnológica era individual. Aprende mais, adapta-te, adquire competências, torna-te indispensável. Agora que a IA ameaça quase 29% do emprego nacional, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a tecnologia torna dispensável precisamente aquilo que disseram ao trabalhador para aperfeiçoar. O mérito não o salva, salva quem possui a máquina.

O tempo necessário para produzir riqueza vai diminuir. Isso podia ser uma conquista coletiva, trabalhar menos, viver melhor, libertar tempo para a educação, a família, a vida. Mas se a propriedade continuar concentrada, o resultado será o oposto. Menos trabalhadores, mais dependência, mais riqueza nas mesmas mãos. O futuro não será decidido pelo que as máquinas conseguem fazer, mas por quem decide para que servem e quem fica com o que produzem.

Quem decide quanto vale o nosso trabalho? Quem decide quanto tempo da nossa vida pode ser ocupado? Quem decide quem suporta o risco? Quem fica com o resultado?

Quando a renda expulsa, a escola falha e o trabalho deixa de garantir uma vida, a culpa individual não chega para explicar o que está a acontecer. Durante décadas, a mudança pareceu inevitável. Quando já ninguém sabe de que classe é, chegou a hora de a classe dizer não e fazer-se forte na sua resolução.

Há sinais.

João Paulo Maltez