"...O mal do mundo está em fazerem trabalhar a mente das pessoas para que as controlem, e foi assim no comunismo e foi assim no nazismo..."
O dedo em riste da Fátima Duarte (a nossa Fátinha), que está vereadora do PSD na Nazaré, ao comentar ontem em reunião de câmara a festa da família no agrupamento de escolas da Nazaré, aponta para uma abstração enquanto apaga uma realidade histórica concreta. Em Portugal, quem verdadeiramente trabalhou para controlar as mentes não foi uma ideologia, mas um regime, o Estado Novo. Durante 48 anos, este foi o verdadeiro arquiteto do pensamento único, erguendo o seu poder sobre os alicerces da censura, da ignorância forçada e do terror policial. Este controlo materializou-se nas tesouras e lápis azuis que cortavam e riscavam jornais, nas celas da PIDE, no Forte de Peniche ou no "Campo da Morte Lenta" que silenciavam vozes, e numa escola destinada a reproduzir hierarquias, não a formar espíritos livres.
Quando o dedo acusador une, no mesmo gesto, comunismo e nazismo, comete mais do que um erro histórico. Concretiza uma inversão perversa da memória. Em Portugal, o movimento comunista não foi o agente do controlo, mas a principal força organizada que lhe resistiu. Enquanto o regime de Salazar e Marcelo Caetano oprimia com o monopólio da verdade, os comunistas desafiavam-no distribuindo nas sombras o jornal Avante!, criando redes clandestinas de formação política e sindical, e oferecendo uma linguagem de esperança e transformação a um país asfixiado pelo medo. A luta não foi para "trabalhar a mente", mas para a libertar do controlo da propaganda fascista.
O gesto da vereadora, portanto (mesmo que carregado de falta de coerência histórica pois usa um direito conquistado por uma luta para a difamar. Ferido de oportunismo político, pois beneficia do sistema democrático sem reconhecer quem mais contribuiu para o criar e pejado de ingratidão histórica, uma vez que ataca os construtores da casa que agora é a sua habitação), só é possível graças ao sucesso daqueles que ela acusa. O dedo ergue-se no espaço cívico conquistado pelo 25 de Abril, uma revolução cujo caminho foi pavimentado por décadas de resistência onde os comunistas pagaram um preço elevado em prisões, torturas e exílio. A ironia é profunda e reveladora. A liberdade que permite hoje este gesto de acusação moral foi, em parte muito significativa, conquistada pelos acusados.
Este dedo em riste é sintomático de um presente que prefere condenar fantasmas a enfrentar legados reais. Enquanto aponta para o "comunismo" como uma entidade metafísica e maligna, omite-se de apontar para o fascismo português, cuja sombra ainda condiciona o país. Omitem-se as continuidades estruturais, os privilégios não questionados, as desigualdades que o Estado Novo cultivou e que a democracia não conseguiu erradicar. O dedo acusa os que distribuíam informação proibida, mas não acusa o sistema que a proibia. Acusa os que organizavam sindicatos clandestinos, mas não acusa o regime que os ilegalizava.
Há, neste gesto, uma violência subtil. É a violência do apagamento. Ao colocar no mesmo plano histórico o nazismo (regime genocida) e o comunismo português (movimento de resistência antifascista), não se faz uma reflexão crítica sobre o totalitarismo. Faz-se, sim, uma operação de limpeza da memória nacional. Absolve-se indiretamente o Estado Novo, agora mera "ditadura" entre outras, e criminaliza-se a sua oposição mais consequente. É uma forma de reescrever a história onde os carrascos e as vítimas, os opressores e os resistentes, ficam equidistantes num suposto "mal universal".
Ao descer do dedo fica a pergunta que o gesto evita. Quem controla hoje a memória? Quem decide o que se recorda e o que se esquece? A democracia exige mais do que a liberdade de acusar, exige a responsabilidade de recordar com rigor. E o rigor histórico diz-nos que, em Portugal, foram os comunistas, quem mais arriscou para que hoje possamos discutir, discordar e apontar dedos. Usar essa liberdade para os difamar não é apenas ingratidão histórica. É uma forma insidiosa de ceder ao verdadeiro controlo mental. O que nos faz combater os libertadores do passado enquanto normalizamos com acordos na Assembleia da Républica, nas Autarquias e nas Juntas de Freguesia os opressores do presente.
A democracia não se fortalece com dedos acusadores em riste, mas com mãos que constroem memória coletiva. E essa memória, em Portugal, é clara. Antes de apontar para o comunismo, o dedo teria de se curvar perante os que, resistindo ao verdadeiro controlo das mentes, nos deixaram a liberdade de o criticar.