É tão incómoda a festa, pá — O Que Fica

É Tão Incómoda a Festa, Pá

Há uma acusação que regressa todos os anos, sempre com dramática indignação e pressa mediática em condenar. A Festa do Avante! torna-se, por esta ou aquela razão, um problema que é preciso denunciar. Muda o argumento, o alvo, o pretexto, mas o mecanismo é invariável. Encontrar uma razão para pôr a Festa no banco dos réus. Este ano, o pretexto foi a Frente Popular para a Libertação da Palestina. O PCP convidou uma organização que consta da lista da União Europeia de entidades sujeitas a medidas antiterroristas e, a partir daí, surgiu a acusação de que estaria a branquear ou a apoiar o terrorismo. Antes dela, outros houve.

Por que razão precisa a Festa, todos os anos, de um novo processo em praça pública? Talvez valha a pena perguntar o que significa ser "classificado como terrorista". É uma classificação com consequências jurídicas, sujeita a revisão e que pode ser alterada quando mudam as circunstâncias políticas.

Nelson Mandela sabia-o melhor do que ninguém. O ANC tinha uma estrutura armada e foi durante décadas tratado como terrorista por vários governos e autoridades ocidentais. Já Nobel da Paz, Mandela e outros responsáveis do ANC continuavam, nos Estados Unidos, sujeitos a restrições legais associadas à antiga classificação de terroristas. Os mesmos que hoje lhe erguem estátuas trataram-no, durante décadas, como inimigo.

Yasser Arafat é um caso de dupla personalidade. Durante décadas, foi tratado como inimigo por Israel e pelos Estados Unidos. Em 1974, discursou na ONU com um ramo de oliveira na mão. Em 1994, recebeu o Nobel da Paz pelo processo de Oslo. Depois de 2000, voltou a ser tratado como inimigo, confinado pelas tropas israelitas ao seu quartel-general em Ramallah, por aqueles que tinham acabado por o reconhecer como interlocutor. Não deve ter mudado de natureza duas vezes numa década. Mudou a conveniência de quem o classificava.

Se quiserem, há um exemplo bem mais recente. Ahmed al-Sharaa liderou a filial síria da Al-Qaeda e foi designado pelos Estados Unidos como terrorista em 2013. Em novembro de 2025, menos de um ano depois da queda de Bashar al-Assad e da chegada de al-Sharaa ao poder, o Conselho de Segurança da ONU retirou-o da lista de sanções, os Estados Unidos retiraram-no da sua lista de terroristas globais e Donald Trump recebeu-o na Casa Branca. A mesma pessoa que durante anos foi apresentada como ameaça terrorista passou, em poucos meses, a ser tratada como interlocutor político. Não houve uma absolvição histórica daquilo que foi. Houve uma mudança de contexto, de interesses e de política. A etiqueta caiu porque mudou a utilidade de quem a tinha colado. Bastaram poucos meses.

Estes não são casos isolados. A história está cheia deles. A etiqueta de terrorista não é uma sentença moral definitiva, mas uma classificação que pode mudar com as circunstâncias políticas. É aqui que a polémica deixa de ser apenas sobre terrorismo e passa a ser sobre democracia. Uma sociedade democrática não reduz o juízo político a listas elaboradas por autoridades com critérios próprios. A Festa não é uma embaixada nem um parlamento. É um espaço político e cultural de um partido que tem o direito de escolher as suas solidariedades e de dar voz a quem entende.

A polémica também não deve fazer-nos ignorar outra nuance importante. Os mesmos Estados que colam a etiqueta de terrorista em quem lhes resiste exercem formas de violência que nos vão ensinando a não ver como tal e dão-lhes nomes respeitáveis. Segurança, defesa, ordem, estabilidade. Um bloqueio que mata por privação não é terrorismo, é política externa. Um bombardeamento que arrasa um bairro não é terrorismo, é autodefesa. E a miséria que mata por doença e por fome, essa nem sequer entra na conta da violência. É só o funcionamento normal da economia. A violência do poder tem sempre um nome que a legitima. A de quem resiste, uma classificação que a desacredita. Quem tem poder para dar nome à violência é quem decide o resto. A acusação de violência dirigida a quem resiste ignora frequentemente a violência já incorporada na ordem que se apresenta como pacífica. O colonialismo, a ocupação, a exploração, a guerra, a pobreza fazem parte dessa história.

O velhinho Marx entra aqui incómodo e atual como nunca. Lembra-nos que o mundo existente não é natural nem inevitável. Foi construído por relações económicas e políticas e, por essa mesma razão, pode ser transformado pela nossa ação coletiva. O PCP deixou claro que não rege as relações internacionais pelos critérios das entidades que classificam organizações como terroristas e recorda que, se assim fosse, nunca teria expressado solidariedade com Nelson Mandela. É uma posição política, pode ser aceite ou contestada, mas há uma diferença fundamental entre contestar uma escolha política e afirmar que ela constitui, por si só, apoio ao terrorismo.

Não é a primeira vez que uma polémica em torno da Festa acaba por se revelar diferente da realidade. Em 2020, foi a pandemia. O Avante! realizou-se sob regras sanitárias definidas pela DGS, com a lotação limitada a 16.563 pessoas, e esteve no centro de uma enorme controvérsia política. Nessa altura, a SIC exibiu no Jornal da Noite uma capa falsa do The New York Times que anunciava uma "festa de suicídio coletivo" com 33 mil visitantes. A capa era uma montagem grosseira. E estranhamente, o próprio Polígrafo, rubrica de fact-checking do mesmo canal, já a tinha desmentido horas antes. Ainda assim, foi exibida no principal noticiário como se fosse verdadeira. Mais uma vez, o Avante! foi colocado no centro do julgamento público, agora com recurso à mentira.

É por isso que vale a pena olhar para lá da polémica. Há quem julgue o Avante! um espetáculo de três dias. Desiludam-se. É uma construção coletiva que dura o ano inteiro. A Festa de 2026 assinala cinquenta anos, nascida da liberdade conquistada à ditadura e atravessando desde então atentados à bomba, a normalização neoliberal e o cerco mediático de agosto. Repete-se todos os verões e continua a ser construída por militantes e amigos do PCP através de trabalho voluntário. Não é apenas o que acontece entre sexta-feira e domingo na Quinta da Atalaia. É tudo o que foi preciso fazer antes para que aqueles três dias possam acontecer. Montar, transportar, cozinhar, limpar, organizar, receber, discutir, criar. Milhares de camaradas e amigos a trabalhar juntos para construir uma coisa que é deles. Quando acaba, não termina. Pelo contrário, o sentimento, a união, a solidariedade que a tornaram possível permanecem, mais vivos e mais vibrantes. Isso não é nostalgia. É prática.

Pelos vistos, parece ser isso que incomoda. É nessa forma de fazer que está uma das diferenças mais profundas. Durante três dias, na Quinta da Atalaia, a lógica do lucro não organiza o espaço. A cultura não é apenas mercadoria, nem a política apenas espetáculo. Uma parte essencial daquilo que ali acontece assenta em trabalho voluntário, feito coletivamente por pessoas que montam estruturas, servem as broas, se revezam nos serviços de almoço e jantar, organizam os debates e voltam para casa exaustos e satisfeitos. O trabalho não desaparece. Muda de sentido. Deixa de ser apenas aquilo que se vende para sobreviver e passa também a ser aquilo que se oferece para construir uma comunidade. Isso é profundamente político. E é por isso mesmo que a Festa é mais do que uma festa.

É também aqui que o Avante! toca numa questão que Marx, que insiste em festejar na Atalaia, colocou no centro da sua crítica. O que acontece quando aquilo que fazemos deixa de ser apenas uma mercadoria e passa a ser também uma forma de construir coletivamente alguma coisa? É uma pergunta incómoda, porque obriga a olhar para aquilo que o discurso dominante nos apresenta como natural. Quem decide como organizamos o trabalho, quem beneficia dele, porque aceitamos como natural que quase tudo tenha de passar pelo preço, pelo lucro e pela propriedade privada. A Festa não responde em forma de teoria a estas perguntas. Mostra, durante três dias, que outras formas de organizar a vida coletiva são possíveis. Uma possibilidade que o capitalismo nos ensina a esquecer.

Aos camaradas que erguem as tendas, servem as broas, se revezam alegremente nos serviços de almoço e jantar, organizam os debates e voltam para casa exaustos e satisfeitos, fica uma certeza. Os que querem reduzir a Festa a um convite controverso não perceberam nada. O Avante! é muito mais do que uma polémica de verão. É, há cinquenta anos, um reduto de liberdade, um lugar onde a organização coletiva deixa de ser palavra de ordem e passa a prática. É um encontro de pessoas que chegam de lugares diferentes, trazem as suas lutas, as suas músicas, as suas ideias e acabam por descobrir que, juntas, conseguem levantar qualquer coisa que parecia impossível. O que ali se constrói continua nas coletividades, nas comissões de bairro, nas lutas concretas da vida diária que não esperam pela próxima Festa para começar. A Festa passa e a semente fica. O Avante! é o ensaio geral de que outro mundo, organizado de outra forma, cabe dentro deste.

Não é preciso concordar com o PCP para reconhecer a singularidade disto. É uma festa política que assume uma visão do mundo. Umas causas defende, outras combate. É por isso que não pode ser reduzida à ideia de que deveria ser um espaço neutro, esterilizado de conflito e de posições políticas. A Festa incomoda? Que continue. Essa é mais uma das suas virtudes, a capacidade de incomodar, de provocar discussão, de juntar gente e de pôr em causa aquilo que muitos preferiam que fosse aceite sem perguntas. A democracia não se constrói silenciando as vozes que incomodam. Constrói-se tendo a coragem de as ouvir. O Avante! pode ser tudo o que quiserem e disserem. Mas festa, castrada? Isso não!

João Paulo Maltez