Em agosto de 2014, o artigo "Temos maus professores" inflamou o debate sobre a Educação em Portugal. A ideia era simples. As médias de acesso aos cursos de Educação eram baixas, muitos candidatos provinham de contextos socioeconómicos desfavorecidos e, por isso, seriam "alguns dos piores das gerações do presente" a preparar as gerações do futuro. A solução passava por mais avaliação, mais escrutínio e mais exigência. Afinal, os resultados medem a qualidade. As métricas não mentem.
Alexandre Homem Cristo, autor desse texto e, doze anos depois, Secretário de Estado Adjunto e da Educação, já não escreve sobre os maus professores. É hoje um dos responsáveis pela política educativa do país. Os resultados estão à vista.
O exame nacional de Português, realizado por mais de 81 mil alunos, desencadeou uma polémica porque um dos seus grupos coincidia com um exercício publicado meses antes num manual de preparação para o exame, disponível nas livrarias. Quando a notícia rebentou, a primeira coisa que fiz foi pensar nos meus filhos. Eles estudaram por esse livro? Tivemos essa sorte? E quem não teve? Quem não comprou aquele livro específico? Quem não pôde comprá-lo? Ficou para trás por isso? Desde quando é que a igualdade de oportunidades se mede pelo saldo da conta bancária dos pais?
Esperávamos transparência, recebemos um parecer. O EduQA concluiu que não existiu qualquer violação da equidade e o Governo apressou-se a encerrar a polémica. Dias depois, o Público revelou que o parecer tinha sido elaborado à revelia dos próprios conselheiros científicos do organismo. O documento apresentado para devolver confiança às famílias acabou por servir para proteger o Governo, não para esclarecer o que realmente aconteceu. Em vez de nos tranquilizar, deixou-nos com mais perguntas do que respostas. Quem garante agora que a igualdade de oportunidades foi respeitada? Quem responde perante as famílias? De que nos serve um parecer científico se a ciência, o rigor e a isenção foram deixados de fora?
O exame de Português estava longe de ser um caso isolado. A correção digital dos exames nacionais foi apresentada como modernização, eficiência e poupança de dezenas de milhões de euros. O que as famílias estão a ver é outra coisa. Professores classificadores ficaram dias sem conseguir aceder às provas. Quando finalmente chegaram, vinham incompletas, com partes das respostas em falta, sem condições para uma classificação rigorosa. No centro de digitalização, foram recrutadas pessoas por mensagem para, em horas extraordinárias, separar folhas à mão, numa tentativa de remendar um sistema que nunca esteve preparado para funcionar em condições reais. Diretores de agrupamento vieram também dizer que a responsabilidade não está nas escolas, está no sistema. Mais uma vez, a responsabilidade dilui-se e ninguém assume o que falha no momento mais crítico para os alunos. Há ainda profissionais envolvidos na classificação a admitir que não conseguem garantir que estão a avaliar provas completas, com respostas truncadas e elementos que nunca chegam ao avaliador. Os nossos filhos deram o melhor. Nós sabemos que esse esforço está a chegar truncado, incompleto, degradado a quem o vai avaliar. Inaceitável é pouco para o que está a acontecer.
Como se tudo isto não bastasse, também as convocatórias revelaram um caos difícil de explicar. Professores chamados a corrigir disciplinas que nunca lecionaram. Docentes reformados há mais de um ano incluídos nas listas. Classificadores convocados para escolas onde já não trabalham. E num detalhe surreal, chegou a ser convocada uma professora que já tinha falecido. A resposta do Ministério e das entidades responsáveis foi sempre apontar o dedo às escolas por não terem atualizado as listas. Nem uma palavra de responsabilização própria. Como pai, dou por mim a perguntar em que mãos, em que plataforma e em que condições estão realmente os exames dos meus filhos. Isto é uma vergonha.
Um professor classificador contou-me que tinha as férias marcadas quando o prazo de correção foi alargado para compensar os atrasos do sistema. As suas férias tiveram de ser alteradas para compensar a incompetência de quem devia ter planeado o processo meses antes. A pergunta que fica é óbvia. Se nem esta organização foi conseguida sem gerar novos problemas, que garantias temos nós, pais e encarregados de educação, de que o exame dos nossos filhos vai ser avaliado com rigor, por quem tem condições para o fazer, dentro de um prazo que não coloque em risco as candidaturas ao ensino superior?
As notas saem a 14 de julho. Dois dias depois começam os exames da segunda fase e, menos de uma semana depois, abrem as candidaturas ao ensino superior. O calendário não deixa margem para falhas. Cada atraso, cada parte das respostas em falta, cada falha de plataforma tem um rosto concreto. O dos meus filhos. O da filha do meu vizinho. O de milhares de jovens que estudaram durante meses e merecem um sistema que esteja à altura do esforço que fizeram. O que as famílias portuguesas sentem não é apenas preocupação. É estupefação. É revolta. É a sensação de que anos de trabalho dos nossos filhos, das nossas famílias, foram entregues a uma lotaria informática gerida com um amadorismo que não tem desculpa.
E a CONFAP, a principal confederação de pais e encarregados de educação do país? Num momento como este, as famílias precisam de quem as represente com firmeza. De quem bata o punho na mesa. De quem exija responsabilização e garanta que as famílias têm voz quando o sistema falha. O que tenho escutado é silêncio, ou pouco mais do que isso. As famílias estão sozinhas e a CONFAP está silenciosa. Esse silêncio é, ele próprio, um escândalo dentro do escândalo.
O que está hoje em causa não é apenas um exame. São milhares de vidas colocadas em suspenso por um Estado que exigiu aos nossos filhos esforço, responsabilidade e excelência e respondeu com improviso e desorganização. Já não bastam explicações. É preciso garantir que nenhum aluno é prejudicado por este caos e apurar responsabilidades por todas as falhas ocorridas. Alguém tem de responder por isto.
Ouvimos que os professores deviam habituar-se ao escrutínio. Que o mérito tinha de ser medido. Que as métricas eram indispensáveis para distinguir o bom do mau desempenho. Se os resultados são o critério, então apliquemo-los a Alexandre Homem Cristo e ao ministro Fernando Alexandre.
Os resultados desta governação não revelam modernização nem rigor. Revelam desorganização, improvisação e uma perda de confiança que vai muito além dos exames. São o espelho de governantes que exigem aos outros métricas e escrutínio, mas falham quando chega a hora de se lhes aplicar o mesmo critério.
Disseram-nos que as métricas não mentem. Olhando para o que aconteceu, a conclusão faz-se sozinha. O que temos são muito maus governantes.
Pai e encarregado de educação de dois alunos que realizaram exames nacionais e vão concorrer ao ensino superior.