A imagem está gasta. A narrativa que os Estados Unidos projetam sobre si próprios, como "polícia do mundo", "defensores da liberdade" ou "garante da ordem internacional", já não consegue ocultar as sombras projetadas. Para compreender esta fachada é necessário olhar para a história, porque a justificação moral do poder americano nunca foi uma constante. É uma ferramenta adaptável, moldada a cada época para servir um projeto contínuo e implacável de hegemonia global. Essa hegemonia não assenta apenas no poder militar, mas numa narrativa em permanente mudança, capaz de transformar ambição estratégica em dever moral, enquanto os resultados palpáveis são, com uma consistência devastadora, a instabilidade política, a destruição institucional e a apropriação estratégica de recursos.
No século XIX, a narrativa assumiu a forma do "Destino Manifesto". Os Estados Unidos reivindicavam um direito quase divino à expansão territorial, anexando terras mexicanas e conduzindo campanhas de extermínio contra povos indígenas, tudo sob a bandeira de levar a civilização. Foi um projeto imperial continental, racializado e violento, legitimado por uma suposta missão histórica.
Após a Segunda Guerra Mundial, com a União Soviética como rival, a roupagem mudou. Os EUA passaram a apresentar-se como líderes do "Mundo Livre", defensores da liberdade contra o totalitarismo comunista. Esta retórica serviu para justificar uma intervenção agressiva e seletiva ao longo da Guerra Fria. Patrocinou golpes de Estado que derrubaram governos democraticamente eleitos, como os de Jacobo Árbenz na Guatemala (1954) e Salvador Allende no Chile (1973), apoiou ditaduras brutais como as da Operação Condor na América do Sul e de Suharto na Indonésia e financiou guerras por procuração que devastaram países, armando por exemplo,os mujahideen no Afeganistão. O objetivo parece claro, a contenção geopolítica. A democracia e a liberdade?
Com o colapso da URSS, em 1991, os Estados Unidos emergiram como uma hiperpotência sem rival e a narrativa evoluiu novamente. Passaram a assumir o papel de "polícia do mundo", garante da ordem global e promotor da democracia de mercado. O auge paradoxal foi a invasão do Iraque em 2003. Uma guerra baseada em mentiras, apresentada ao mundo como uma missão para libertar um povo oprimido e eliminar a ameaça de armas de destruição maciça. A máscara do polícia benevolente atingiu aí a expressão máxima.
Já no século XXI, face à ascensão da China e o enfraquecimento relativo da posição global, a retórica ajusta-se mais uma vez. Os EUA passam a apresentar-se como defensores de uma "ordem internacional baseada em regras", uma ordem que, não por acaso, foi desenhada à sua imagem e lhes concede vantagens estruturais profundas.
O padrão para legitimar interesses estratégicos é claro, civilização, liberdade, democracia, regras.
Apesar do que já vimos, uma narrativa, por mais adaptável que seja, não se sustenta por si só. A eficácia depende de um aparelho sofisticado e multifacetado de persuasão, que opera tanto pela sedução como pela definição dos termos do debate.
Hollywood, a música popular, as universidades de elite e a produção cultural em geral constroem uma imagem sedutora dos EUA como terra da liberdade individual e da oportunidade. Essa projeção cultural gera simpatia global e torna credível a narrativa hegemónica. Paralelamente, o enquadramento mediático das crises internacionais é alimentado pela análise de influentes think tanks anglo saxónicos, que funcionam como os arquitetos intelectuais da visão geopolítica de Washington. Instituições como o Council on Foreign Relations (CFR) em Nova Iorque, que define a agenda do debate respeitável da política externa americana, ou o International Institute for Strategic Studies (IISS) em Londres, que estabelece os parâmetros técnicos das discussões sobre segurança global, fornecem a linguagem e os conceitos que os media e os políticos adotam. É neste ecossistema que termos como "Estado-pária", expressões como "eixo do mal" e justificações como "intervenção humanitária" são cunhados, normalizados e disseminados, moldando a perceção pública.
A somar, os EUA garantem a segurança das principais rotas marítimas e sustentam o dólar como moeda de reserva mundial, criando uma dependência funcional que permite apresentar o dominio como um serviço indispensável. Finalmente, a construção sistemática de inimigos. Ontem o comunismo ateu, depois o terrorismo islâmico, hoje o autoritarismo revisionista, todos merecedores de ações agressivas como atos de defesa.
É neste contexto que a hipocrisia estrutural da política externa americana se torna evidente. A lei hegemónica é seletiva. A Venezuela é um caso paradigmático. Por possuir as maiores reservas de petróleo do mundo e por se ter alinhado com potências rivais como a China e a Rússia, foi submetida a um cerco económico severo. As sanções, justificadas em nome da democracia e dos direitos humanos, procuram infligir sofrimento suficiente para provocar a queda do regime. O objetivo real é geopolítico, recuperar controlo sobre o petróleo e expulsar influências concorrentes.
Em contraste direto está a Arábia Saudita, uma monarquia absoluta com um historial de violações de direitos humanos, que permanece aliada estratégica privilegiada. O motivo é simples, garante o fluxo de petróleo, compra armamento americano e ajuda a conter o Irão. Aqui, o discurso democrático e a liberdade desaparece.
Esta lógica não é exceção, é regra. Aliados estratégicos são protegidos, adversários são punidos, independentemente de princípios. Foi assim no Iraque, cuja invasão deixou um país devastado. Na Líbia, onde a intervenção resultou num Estado falhado, e no assédio permanente ao Irão. A democracia funciona como instrumento retórico, mas é perfeitamente descartável quando inconveniente.
A credibilidade deste projeto hegemónico degrada-se ainda mais quando se observa a crise interna dos próprios Estados Unidos. Um poder que se apresenta como farol democrático perde autoridade quando a sua própria democracia começa a entrar em colapso.
O ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, marcou uma rutura aparentemente irreversível. O presidente em exercício incentivou uma tentativa de subversão eleitoral, destruindo o mito da singularidade democrática americana. A hiperpolarização transformou a política numa guerra tribal, paralisando a governação e normalizando a violência política. A erosão institucional tornou-se visível num sistema judicial cada vez mais politizado, na propagação da "Grande Mentira" eleitoral, uma narrativa de fraude massiva desmontada por mais de 60 derrotas em tribunal, pelo desmentido de autoridades republicanas locais e pelas conclusões de auditorias estatais.
É neste contexto que a personalização do poder na mão literal de Donald Trump não surge como anomalia, mas como sintoma. O Trump-Kennedy Center, agora assim rebatizado e a transformação de espaços históricos da Casa Branca em palcos de autocelebração com designação prevista de "Donald Trump Ballroom", revelam um padrão clássico de autoritarismo onde o Estado tende a confundir-se com o líder. Este desprezo simbólico estendeu-se ao discurso sobre outros povos. Declarações públicas que classificaram certos países como "países de merda" ou que descreveram chefes de Estado de forma depreciativa revelam uma visão profundamente desumanizada e desumanizante, em total contradição com a retórica humanitária usada para justificar sanções e intervenções. O povo, nestes casos, não é sujeito de direitos, mas figurante ou obstáculo.
O ciclo narrativo parece, assim, ter chegado ao limite. Do Destino Manifesto ao defensor da ordem baseada em regras, a prática manteve-se fiel à mesma lógica de poder. O mundo começa a não ver um polícia imparcial mas um poder hegemónico cuja máscara moral caiu e mostra um interesse disfarçado. Produzir instabilidade nas regiões que desafiam o seu domínio e proteger com zelo os recursos que alimentam a sua máquina.
A lição da Venezuela, do Iraque e do próprio 6 de janeiro é inequívoca. Sempre que os Estados Unidos falam de democracia e liberdade, é legítimo perguntar para quem, e a que custo?